quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Parir

Não é difícil e nem dói tanto como se diz. Coragem precisa e um pouco de medo também. Muita coragem e medo nenhum é fingimento; afinal coragem nada mais é do que camada sobre camada de medo costurado em busca de solução. Agora, medo a ponto de encolher queixo, subir ombros e juntar joelhos já é perplexidade, o justo lugar onde tudo trava e nada acontece.Se estiver no teu poder, apenas escolhe o que quer e faz acontecer. Se for demais tal nobreza, gritar pode, xingar também, quem quiser e do jeito que puder. O momento não é de meias verdades, meios sorrisos, mas de máxima inteireza.Bem no começo é provável que te prepares para fazer força, mas logo perceberás que a força impede a entrega total do teu cérebro para o teu corpo. E assim te soltarás, livre do que vem de fora e presa apenas aos desígnios de tua natureza visceral.Tudo descerá então, porque é assim que deve ser. É o fim e o início de tudo, haverá um mistério enorme; tu vais chegar muito perto de matar e de morrer, te confrontarás com um abismo enorme, estarás sozinha, serás a dona do teu destino e além de não morreres, terás que salvar a ti e a teu filho, com toda a força da tua alma e a soltura da tua carne. Ele sairá de dentro de ti sozinho. Ao recebê-lo, esse ser pequenino e delicado como um bonsai, de tão capaz, não te parecerá indefeso.Tua alma enternecerá e só teu corpo, mestre maior de uma sabedoria ancestral, será capaz de sustentar as singelezas que nascerão de teu espírito. O leite, sossega, virá da brandura da tua alma.
por Claudia Rodrigues jornalista e educadora somática

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